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Melrose apresenta

Almae Sirenes

15/01  ZDB

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BILHETES

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Melrose apresenta o seu debut “Almae Sirenes” pela primeira vez dia 15/01/24, na Galeria ZDB.

Compra o teu bilhete aqui.

Mel irá tocar estas e outras musicas acompanhada pelo piano de Mary Anne. Podes saber mais sobre Mary Anne aqui.

Sobre o concerto

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Biografia

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Melrose, natural da ilha de São Miguel, nasceu em 2001 e é uma artista trans, trans-disciplinar. A sua prática musical baseia-se na escrita e no improviso com a lira e a voz, procurando expressar o mundo subconsciente, navegando as ondas sonoras. Em 2024 participa em duas residências de produção musical: na Vaivém grava o seu primeiro EP em estúdio, "Almae Sirenes": uma análise da personagem folclórica da sereia, que procura alcançar a desmistificação da mulher, e a exploração de padrões que a condição humana nos obriga a repetir. Nas academias MIL faz parte do grupo MELISMA , onde explora tradições portuguesas e o trauma geracional que assombra o nosso povo. As suas raízes micaelenses e conexão com a natureza pintam a melodia que explora na sua música, transcendente e hipnótica, com vertentes de folk e infusões de pop.

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com Melrose

I can hear siren(e)s

e Maria Miguel Café

Num canto de sereias hipnotizante, Melrose chama Maria Miguel Café (ver + aqui), amiga e artista, para conversar sobre o seu debut com o EP “Almae Sirenes”, que irá apresentar pela primeira vez dia 15 de Janeiro de 2024, na Galeria ZDB.

As duas mergulham numa troca de ideias e impressões que ondula entre o ser feminino e a criação artística. Nesta conversa-entrevista abaixo transcrita, podemos afundar-nos e perder-nos nos segredos de cada música do álbum, passando por vários cenários, do mais concreto ao abstrato, que nos (re) lembram da importância da ancestralidade, liberdade, amor (próprio e ao outro), transformação e improviso. Naquilo que parece quase uma canção de embalar, Melrose desvenda todos os segredos sobre as suas “sereias da alma” e acaba por ser o farol que ilumina as várias camadas de simbolismos que “Almae Sirenes” guarda. 

Clica         no inicio de cada secção para ouvires a musica sobre a qual estamos a falar.

Podes saltar para diferentes secções usando o menu à tua esquerda.

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Mimosa (intro)Melrose

MAR: Acho que a primeira coisa que notei foi o som, que, de alguma forma, faz uma mimesis com aquilo que tu estás a dizer. 

 

MEL: Eu acho isso engraçado porque fiz a melodia primeiro. A minha prática com música é muito improviso e durante uma hora tento ver o que é que consigo fazer. Deixo-me ir até não conseguir pôr mais nada para fora. Eu e o Bruno íamos encontrando secções no improviso, e depois cada uma dessas secções acaba por tornar-se uma música. Na residência Vaivém, que foi de uma semana, no final do dia ia para casa e tentava pensar que emoções é que esta melodia está a invocar. Por isso faz sentido a melodia e a letra terem sempre uma ligação natural.

 

MAR: É interessante o que estás a dizer, a relação é quase uma espécie de diálogo, um encontro entre as duas coisas. A primeira coisa que eu escrevi foi Canto de Sereia, e acho que essa ideia vai ecoando um bocado por todo o EP, uma espécie de eco, uma pergunta-resposta constante.

 

MEL: Há um mito que fala sobre uma pessoa que gritou pela montanha e depois achava que alguém lhe respondia de volta, mas era só o seu próprio eco.

 

MAR: Parece que é outra pessoa fora de nós que nos está a responder, mas somos nós próprias, o nosso outro lado… o instinto, que parece que vem da aleatoriedade primeiro, mas com o passar do tempo consegues perceber que há um padrão, que as coisas encaixam e são pensadas e racionalizadas, embora tu não tivesses isso na cabeça quando estavas a criar.

Há também uma óbvia temática náutica, do mar, e uma clara influência desse universo, que faz todo o sentido porque tu és dos Açores. A residência também foi aí? 

 

MEL: Sim, foi. Foi aqui mesmo. 

 

MAR: Na primeira música há um som que acho mesmo bonito, acho que é um som de um instrumento que parece quase golfinhos; uma espécie de violino ou qualquer coisa a raspar. 

 

MEL: É a lira, é tudo com o mesmo instrumento. A lira à primeira vista tem só 12 cordas e parece um pouco limitado o seu som, mas eu ando sempre à procura de tentar explorar o instrumento na sua totalidade, com outros sons que o instrumento pode fazer de forma menos convencional. E isso acaba por abrir o horizonte para fazer muitas mais coisas. 

 

MAR: Eu por acaso não ouço música com lira frequentemente e por isso quis perguntar qual era esse som. Parecia mesmo que estava no mar e que estava a ouvir golfinhos lá ao fundo, um canto de sereia, uma onda de encantamento. Esta é a música introdutória e parece quase um embalar. Para mim, a música de embalar equaciona muitas vezes uma presença feminina, a mãe, que te canta antes de ir dormir.

 

MEL: Isso é muito real, nas músicas de embalar parece que associamos sempre a uma voz feminina, talvez porque é mais suave, não sei... 

 

MAR: E isso eu achei que se ligava muito bem com o nome da música: Mimosa. Dá para interpretar a palavra como adjetivo, mas eu fui diretamente para mimosa, a flor. O símbolo da feminilidade, da mulher.

 

MEL: Sim, interessante. Eu acho que a presença feminina é algo que pinta o álbum todo, não consigo não estar conectada a essa energia e não expressá-la, porque sinto que durante muita... e ainda sinto hoje em dia, honestamente… (Why am I gonna hide this?) Sinto que não tenho permissão para expressar o meu lado feminino, que é meio proibido, quase, que não tenho espaço para expressá-lo. Então eu acho que na minha arte, desde o início, procuro sempre expressar essa persona feminina, que é me inevitável, que tem que sair. 

 

MAR: O último ponto que eu ia dizer sobre isto é que, a certo ponto na música, ouve-se uma espécie de respiração. E a forma como ela está ritmada e com a ideia do embalar e do entrar, estar nas ondas… para mim puxa-me para uma cena ritualística, percebes o que eu estou a dizer? 

 

MEL: Um chamamento, de qualquer coisa que tem que sair e que é um padrão. O ano passado comecei a investigar mais sobre a minha linhagem, sobre a minha família. Para mim o tema da ancestralidade é algo que me fascina muito, e eu sinto que a arte é algo tão universal, uma energia muito ancestral, muito antiga: uma expressão de um antepassado antigo, algo que está muito enterrado e que tem de sair. A minha avó escrevia contos para um jornal e ela só conseguiu publicar dois, dos que eu sei. Parece-me que muitos dos nossos antepassados queriam expressar algo, mas nunca tiveram o espaço, porque não lhes era permitido. Sinto que há quase que uma obrigação da minha parte, tentar fazer aquilo que eles não conseguiram fazer, com aquilo que faço. É prestar uma homenagem a esses antepassados, manter a sua chama acesa e conectar-me com a minha essência, mas a essência mesmo nuclear, uma essência mais, mais... 

 

MAR: Primitiva. 

 

MEL: Sim, primitiva, sim.

 

MAR: Identifico-me muito com o que estás a dizer e gosto muito dessa ideia do nosso individual, aquilo que estamos a criar sozinhas, se espelhar para a coletividade, e espelha-se mesmo sem nós querermos. A partir do momento que expomos uma obra ou metemos qualquer coisa cá para fora, deixa de ser nosso, não é? Uma espécie de nascimento coletivo, mas também estamos a carregar coisas connosco, e, de alguma forma, é como se nunca estivéssemos sozinhas, e isso é muito bonito. Eu também tenho a mesma coisa com a minha avó, ela também escrevia e era, acho que se diz “dactilógrafa”, escrevia à máquina de escrever. Do que eu sei, ela era muito boa também na escrita criativa, mas não foi uma coisa que perseguiu ou conseguiu fazer. 

"Para mim o tema da ancestralidade é algo que me fascina muito, e eu sinto que a arte é algo tão universal, uma energia muito ancestral, muito antiga: uma expressão de um antepassado antigo, algo que está muito enterrado e que tem de sair."

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Flor de salMelrose

MAR: Eu estive a pesquisar sobre a flor de sal, e eu achei interessante que a descrição científica da flor de sal é “uma crosta delicada da água salgada enquanto evapora, é a superfície do mar”. E eu achei a forma como ela é descrita, mesmo de uma perspectiva que não é suposto ser poética, achei-a muito bonita.

 

MEL: Eu acho que é uma das expressões mais bonitas, liga o elemento da terra e do mar, e é tão visual.

 

MAR: É, é muito. Estávamos mesmo agora a falar da ancestralidade e dos nossos antepassados, e uma das coisas que eu anotei sobre a flor de sal foi a ligação do sal à antiguidade. É impossível não pensar no que o sal representa para nós, enquanto seres humanos.

 

MEL: Para preservar. 

 

MAR: Exato. Fez-me pensar na conserva, na conserva em sal, na preservação, e também na purificação, que está muito ligada à espiritualidade. A minha mãe tem em casa potinhos com sal para afastar as maldades, para fazer a limpeza das más energias. Outra coisa que eu fui encontrando à medida que eu ouvia e que eu ia lendo, foram algumas referências e palavras que associo à Bíblia, como na passagem “Vós sois o sal da terra.”, e quando eu fui pesquisar um bocado sobre isso, o sal é usado como símbolo da anti-corrupção, mas também é o sal que queima, também é uma espécie de condenação. Mas a coisa principal que eu vejo com a expressão flor de sal, que é uma expressão um bocado mais delicada, é a ideia de impedir a destruição, a preservação, a purificação. Ou seja, uma espécie de narração. Há um eu que está a falar e que está a cantar e que está a espelhar ou a projetar na flor de sal todas essas coisas, toda essa salvação e preservação, mas, que, no fundo, são ilusões. Ou seja, é o sal que queima.

 

MEL: É muito isso. 

 

MAR: E a ideia do “posso ser o teu farol” é um bocado a realização de, ok, tu não és esse sal que eu pensava, não és essa salvação toda, por isso se calhar eu posso ser por ti para compensar.

 

MEL: Às vezes nós não temos noção do poder que nós realmente temos, então procuramos sempre algo exterior a nós, noutras pessoas, e projetamos nelas esta fantasia, este paraíso, que no fundo é interior. 

 

MAR: Achei interessante a conclusão a que eu cheguei sobre essa dualidade, porque é um bocado a ideia de decepção, que eu acho engraçado por eu também ter ido buscar referências da Bíblia, do Cristianismo, que são coisas que tem esse peso da decepção, de qualquer coisa que é suposto ser boa, purificar-te e elevar-te, mas que no fundo acaba por te constranger. 

 

MEL: Sim. Ter a noção que algo não é bom para ti, ou ter a noção dessa máscara, desse teatro, mas mesmo assim ir atrás disso… Porque é que fazemos isso? Eu questiono-me: porque é que vamos atrás de coisas que sabemos que não nos fazem bem?

"Às vezes nós não temos noção do poder que nós realmente temos, então procuramos sempre algo exterior a nós, noutras pessoas, e projetamos nelas esta fantasia, este paraíso, que no fundo é interior."

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Moça Mão DadaMelrose

MAR: Olha, isso é a deixa perfeita para falarmos da Moça Mão Dada. A primeira coisa que eu tenho é “confiança e esperança”. A resposta ao que estavas a perguntar agora é isso mesmo: esperança. Nós, mesmo doendo, mesmo magoando: temos esperança. A esperança para mim é o sentimento mais feminino possível. O esperar, o aguardar, o ter paciência… a cegueira… A cegueira que é ver tudo completamente, mas escolher fechar os olhos para tentar esperar que alguma coisa aconteça. 

 

MEL: Com essa música eu procurei criar uma personagem específica. Fazer um character portrait desta mulher que dá tudo a todos,  mas não guarda nada para si. E depois percebemos no final da música que ela pertence ao mar. Ela é do mar, então decide abandonar tudo, a vida que tem na terra para ir para o mar. No mar tem tudo o que ela quer, que é nada. Recentemente um tópico que me tem interessado muito é a alquimia: reduzir a essência até a sua matéria-prima, e é interessante a forma como é um processo material, mas que reflete um processo imaterial. É algo emocional, psicológico.

 

MAR: Automaticamente, nas primeiras cenas que eu li, fui para essa ideia da simplicidade de conseguir agir por intuição. É uma coisa que parece tão simples e intuitiva, mas é na verdade é preciso trabalhar muito para se conseguir ter. E eu achei engraçada a expressão da “ave rara” porque para mim essa simplicidade é rara, é difícil. Depois é mencionado o vinho, que é servido e entornado, que vejo como metáfora para nos darmos a alguém, nos entregarmos, mas ter medo de dar demais. À medida que fui lendo, o vinho vem de outras formas: com o pai e a mãe, que são figuras importantes na narrativa. O pai, que é o símbolo do aviso: “tens de te focar, ver como é que as outras pessoas fazem, não sejas assim”, que ao olhar para a simplicidade e inocência vê falta de foco, falta de cuidado. O priorizar o primitivismo ou as nossas vontades é visto como um perigo, porque é uma coisa que não é suposto fazermos. Especialmente sendo mulher, temos de agir de uma forma específica para sermos integradas na sociedade e sermos interpretadas com respeito.

 

MEL: O vinho neste álbum é quase uma personagem secundária. Todo o álbum está com uma atmosfera algo lúcida, um sonho embebido pelo vinho. Fui super inspirada pela metáfora do vinho. É algo que bebemos, tão antigo também. Antigamente bebia-se mais vinho que água. E depois o vinho também embacia a realidade, porque se calhar queremos escapar dela. Visualmente, também é algo que se assemelha ao sangue, essencial para nós.

 

MAR: O vinho parece ter um par no álbum: a água Faz-me lembrar o milagre de Jesus, de tornar a água em vinho. O vinho como o sangue, nutrição e o nosso símbolo de humanidade, e a água, algo mais etéreo, do antes: Corpo-alma.

Eu achei curioso este paralelismo da mãe que está embriagada e a moça que entornou o vinho, na forma como as coisas estão sequenciadas. Parece quase que foi a moça que embriagou a mãe. Há uma espécie de desculpabilização/culpabilização, e logo a seguir vem o partir a loiça e o sair descontrolad, que é quase uma revolta. Eu entornei o vinho, mas não era para tu beberes, e tu bebeste, então agora eu revolto-me e parto a loiça e saio descontrolada e volto à água. Adoro os simbolismos de tudo.

 

MEL: A cena da mãe embriagada e a ligação com o vinho eu vejo também como uma expressão de trauma geracional, são coisas que a família traz e quase que despeja na filha inconscientemente. Então encontra o escape no mar. 

 

MAR: Sim. Eu escrevi literalmente “o mar é seguro”. Há uma espécie de segurança na água e no mar, o que é interessante porque muitas vezes o mar e as ondas são vistos como o perigo, o medo, porque é imprevisível, mas no meio da imprevisibilidade é mais previsível.

"Ela é do mar, então decide abandonar tudo, a vida que tem na terra para ir para o mar. No mar tem tudo o que ela quer, que é nada."

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Almae SirenesMelrose

MAR: Agora sobre a Almae Sirenes, é a segunda música que é instrumental, não é? 

 

MEL: Sim. 

 

MAR: Queria perguntar porquê. Porque nas outras músicas privilegias a parte de escrever e de cantar. Porquê inserir a meio do álbum uma música instrumental?

 

MEL: Gosto muito quando álbuns têm uma história e criam todo um universo, e os interlúdios dão para delinear capítulos e criam divisões entre as secções do álbum. Na parte inicial é mais sobre uma névoa de ilusão. Na segunda parte parece mais o confronto com a realidade, mas ainda com alguma fantasia. Quando eu estava a gravar as músicas eu não achei que a Mimosa, nem a Almae Sirenes, necessitassem de palavras. Já conseguem transmitir sensações específicas só com a melodia e voz.

 

MAR: A partir desta música até ao fim há uma visão um bocado mais matura, julgo eu. Não perde a mesma essência de estar sempre à procura de algo nem perde a ligação à inocência, mas é muito mais sério aquilo que vem a seguir. Não sério num sentido de ser mais triste ou assim, mas é mais lúcido, se calhar. É interessante isso que estás a dizer. E eu também achei engraçado que tu usaste o sirenes e parece um bocado “sirens” (de sereia), mas também sirenes (de alarme). Foi intencional? 

 

MEL: Sim, foi. Nos anos da minha mãe, antes de gravar o álbum, ainda não tinha sequer ideia do que é que eu ia fazer. Eu tinha a ideia da personagem da sereia, e já tinha feito alguma pesquisa, mas ainda não tinha uma ideia concreta. Eu lembro-me quando estávamos à margem de um lago, e lembro-me de olhar para um poster, um sinal, literalmente a dizer, “Almae Sirenes”: “sereias da alma”. Essa tornou-se a title track porque materializa essas sereias da alma, as sereias que temos dentro de nós que querem gritar, que não conseguem ficar constrangidas nem podem ser limitadas ou controladas. São algo maior que eu.

 

MAR: Para mim, que não fazia ideia de qual era a referência, eu li um bocado como escrito em português, sirene, literalmente um alarme, o que é interessante porque falaste agora dessa urgência de pôr algo cá para fora, o que, juntando à maturidade que vem a seguir nas outras músicas, parece uma espécie de luz vermelha alerta no meio de um acordar.

Uma coisa que seria interessante falarmos: eu li um artigo sobre como a história da Pequena Sereia muitas vezes ressaltar a pessoas da comunidade LGBTQ+, principalmente para pessoas trans ou em transição, por causa de na história haver a ideia de uma transição que não é só espiritual, emocional, mas física. Na maioria dos filmes em que há transformação normalmente é de humano para animal ou para outra coisa. E no caso da Pequena Sereia, ela já é o que é, há uma transformação corporal que ela faz, estética, mas ela não perde essência, não se transforma em outra coisa diferente. Não sei se isso era uma coisa que tu pensaste... 

 

MEL: Não, eu não pensei, mas acho isso super curioso. Eu procurava desmistificar a mulher assumindo esta personagem de forma a contar experiências reais. Pretendia criar uma camada de fantasia no que toca ao meio sensorial, àquilo que sinto e que quero exprimir, porque acho que quando fazemos arte ou criamos ou partilhamos algo, às vezes é mais fácil adotar uma persona para nos distanciarmos.

 

MAR: Eu fiz aquela introdução toda ao dizer isto porque sinto que na arte há a uma tendência, de que eu não gosto, de reduzir alguém que pertence a uma comunidade ou tem alguma diferença do heteronormativo apenas a isso mesmo, a essa característica. Tudo o que tu fizeste és tu, a Mel, não está associado a mais nada. Eu gosto da forma como as coisas que tu escreves acabam por contar várias histórias, incluindo essa da tua transição, de uma forma que é sensível, que não é direta. Acho muito bom storytelling porque dá para ir a esses lados, se tu quiseres, se a pessoa prestar atenção.

 

MEL: Sim, a realidade é que na música (e em qualquer area artística, ponto) vamos sempre projetar a forma como nós interpretamos a realidade naquilo que estamos a consumir. Portanto, vão haver sempre interpretações diferentes e vão haver coisas específicas que vão ressaltar a cada pessoa, mas isso reflete a identidade da própria pessoa. Isso é o que eu gosto mais na arte, provavelmente. Houve uma altura em que queria ter muito controle naquilo que faço, tinha que ter uma narrativa mega específica, e se as pessoas não interpretassem essa narrativa era quase como se tivesse falhado. Mas no ponto da vida em que eu estou, sinto-me mais livre, porque as pessoas vão sempre retirar aquilo que querem ver ou ouvir.

 

MAR: 100%, eu até diria que isso se calhar é a parte mais violenta de criar: o momento em que tu partilhas e sabes que de muitas formas já não é teu, já é de outras pessoas, já tem outro significado, outro caminho. Mas também acho que houve coisas que eu reparei, que falei contigo, e que eu pensava mesmo que tinham sido intencionais e não foram. Da minha perspectiva que também sou artista, acho interessante não só encontrar detalhes nas coisas dos outros, mas também quando encontram coisas em mim. No fundo é um bocado sobre ser vista, não é? Sermos vistas. 

 

MEL: Sim, exatamente, e eu sinto essa necessidade. Quando crio, quero criar conversas, que não têm que ser necessariamente sobre mim ou sobre aquilo que eu faço. Eu quero conhecer: abro as minhas portas para fazer o subconsciente da outra pessoa entrar, mas hoje em dia é difícil conseguir ter essas conversas de uma forma tranquila ou aberta. As pessoas vão ter as suas preconcepções e vão fechar-se nelas.

 

MAR: Eu identifico-me muito contigo. Por norma, sou uma pessoa que publicamente não comenta muita coisa em relação a arte, porque sei que eu tenho uma natureza um bocado crítica. Não é sobre o trabalho ter qualidade ou não. Acho que principalmente nos artistas jovens às vezes falta a consciencialização dos privilégios que existem na arte, não só financeiros, mas muitos outros (a quantidade de mulheres artistas é minúscula, LGBTQ+ ainda mais, pessoas racializadas). 

 

MEL: Sim.

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ExpectatMelrose

MAR: Isto faz-me pensar na track Expectat. Quando escrevemos poesia ou quando fazemos arte, é uma forma de nos expressarmos, mas meio que em código, para alguém poder desvendar. Por exemplo, eu escrevo muita poesia em inglês, exatamente por isso, porque eu não sinto que é a minha língua, da Maria; é a língua de outra coisa que eu aprendi no exterior. Por isso, achei engraçado, tendo em conta o teor da música, ela estar em latim. 

 

MEL: Desde a decisão do título do EP, tinha o desejo de fazer uma música em latim, porque comecei a escrever alguns poemas em latim este ano. Tive uma cadeira, em Erasmus, de escrita onde senti essa necessidade (que não sei bem como ou porque começou). Acho tão bonita a forma como diferentes palavras em latim juntas têm significados diferentes. É sonoramente interessante. Parece quase algo subconsciente também, mesmo que não compreendam o que está a ser dito literalmente, compreendes a emoção de uma forma específica, eu penso.

 

MAR: Ia perguntar se tu tinhas bases de latim. 

 

MEL: Não, não tenho qualquer conhecimento, mas como escrevo estes poemas vou colecionando certas palavras específicas que me atraem e que têm significados profundos e, portanto, crio uma espécie de colagem. Depois, com o tradutor, eu vou para frente e para trás até encontrar o poema final que expressa aquilo que pretendo transmitir. Sei que nunca vai ser exatamente aquilo que quero, e sei também que o Google Tradutor não é a melhor ferramenta para traduzir latim, por vezes, mas é daí que surge a parte visual, quando eu estou satisfeita com o poema. Mesmo que as palavras tenham significados diferentes do que imaginava, acompanho a forma como o poema se transforma. Acho peculiar toda a transformação que o poema tem até a sua fase final. Nessa música especificamente, esse poema era quase como lançar um feitiço de empoderamento. Delinear a confiança e o futuro desta personagem. Mesmo que se sinta fraca, ela tem poder dentro dela para criar a realidade da forma como deseja.

 

MAR: Esse processo faz-me lembrar uma parte do livro Cartas a um Jovem Poeta, de Rilke, em que ele diz que devemos olhar para nós mesmos como se fôssemos um livro escrito em língua estrangeira. O teu processo parece um bocado isso, ter informação quase instintiva, e depois meio que encontrar significado ou sentido numa coisa que à partida não tem sentido para ti, que não dominas a língua.

Sobre a sonoridade da música, a Expectat destacou-se no álbum para mim, porque acho o som um bocadinho diferente do resto. A composição tem qualquer coisa de ancestral, e depois com o facto de estares a cantar em latim, ainda enaltece mais isso. Também acho que é a música que sussurras mais, que é giro, parece quase mesmo um feitiço/canção de embalar. 

 

MEL: Sim, quando estava a fazer essa música, senti-me muito inspirada por cantos gregorianos, que fortalecem essa ideia do feitiço. Quando canto, não sei, sinto a energia que estou a transmitir através da voz. Com essa música queria tornar essa energia mais evidente, quase óbvia, mas mesmo assim não sei se o será. 

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SinalMelrose

MAR: No final do teu álbum está a Sinal, que é a música se calhar mais upbeat, mais dançável, de todo o álbum. Acho-a playful, mesmo na letra, porque brinca um bocado com aquela ideia das mulheres serem mais místicas e acreditarem mais em coisas energéticas, embora isso às vezes não ser levado a sério, quase um descrédito, ou, às vezes, há mesmo uma tentativa de diminuir essa energia, essa força e desse sentir, pelo exterior.

 

MEL: Há uma demo do GarageBand desta música. Estava a ver uns vídeos de quando fui visitar a Maria há mais de um ano atrás, e eu estava a cantar a letra desta música, sem ter noção de que ela iria realmente tornar-se realidade. Portanto, em termos dos acordes e da melodia da lira, eu tentei criar um som muito repetitivo. “Estou a lançar o sinal.” É algo que se repete, é algo que entra na cabeça, que permanece. Esse sinal de que a música fala é a intuição que nós devemos seguir sempre, o nosso gut feeling, mesmo que, às vezes, duvidamos dela. Cada qual sabe qual é o seu sinal específico, mas hoje em dia temos ideias muito específicas de como é que devemos viver a vida ou do que está certo ou errado - muitas vezes duvidamos do nosso subconsciente à conta de satisfazermos os desejos dos outros.

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MáguasMelrose

MEL: Falando no álbum em geral, eu acho que procurei criar quase que um ciclo, um círculo, um padrão que se repete. Portanto, parece que esta personagem está à procura de lançar um sinal - se voltássemos ao início do álbum: ela encontra essa flor de sal que a ilude, criando desencorajamento, mas depois volta a afirmar-se e lança o sinal novamente. Há todo um ciclo que nunca acaba, até reconhecermos os padrões que quebram esse Samsara; a não ser que queiramos viver em ciclo a vida toda e se calhar isso até traz prazer, de alguma forma.

 

MAR: Obrigada pela tua partilha.

MEL: Temos muitas coisas em comum e é reconfortante saber que estou a partilhar algo com alguém que compreende de uma certa forma aquilo que estou a dizer e não estou só a falar para o ar.

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Melrose apresenta o seu debut “Almae Sirenes” pela primeira vez dia 15/01/24, na Galeria ZDB.

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